Uma escola para o Arthur

Por Edson Gomes, jornalista

A advogada Clarissa Bandeira narra o drama que viveu para poder matricular o filho autista de sete anos em escola na Capital. Após um longo período de oito meses procurando uma vaga em praticamente todas as escolas de Fortaleza, ela finalmente encontrou o único que se disponibilizou a matricular o garoto: o Colégio Santo Inácio.

Quem é pai ou mãe sabe o quanto é difícil buscar uma nova escola para o filho. Tirar a criança de onde já está acostumada com o ambiente, amiguinhos e professores para encarar uma nova realidade não é fácil. Agora imagine para quem tem um filho autista e que precisou bater na porta de vários colégios, sempre recebendo um não como resposta. É o que narra a advogada Clarissa Bandeira Fernandes Batista, que experimentou sentimentos de angustia e dor para matricular o único filho, que foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos dois anos.

Ela visitou 11 escolas além de incontáveis ligações que fez para outros colégios na tentativa de encontrar uma vaga para o garoto. “Foram muitos meses de procura, ansiedade, tristeza e decepção”. A razão para tanta dificuldade é porque, com a vigência da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), a partir de janeiro deste ano, as instituições são obrigadas a receber alunos especiais sem a cobrança de taxas adicionais, porém, a maioria vem descumprindo a norma.

Por conta disso, decidiu ajuizar ação requerendo que a Justiça obrigasse a um colégio aceitar o menino, mas aí se deparou com outro grave problema: a resistência das escolas para fazer a negativa por escrito, documento sem o qual não poderia entrar com processo. Sem nenhuma alternativa, apelou para Deus, que mostrou o Santo Inácio, onde conseguiu a matrícula.

Clarissa fala ainda do esforço que tem feito para se dedicar exclusivamente ao filho, inclusive parou de advogar. “Não é fácil ter um filho especial. Requer mais dinheiro, mais paciência e, principalmente, mais disponibilidade dos pais para uma vida de maior qualidade visando o desenvolvimento da criança”, explica. Nesta árdua missão, conta com o total apoio do ex-marido e pai do Arthur, Charles Teixeira Ibiapina, que é servidor do Ministério Público do Ceará, e do atual marido, o psicólogo Eduardo Almeida. “Graças a Deus o Arthur tem dois pais excelentes. Convivemos em harmonia, sempre para somar e todos ganhamos com isso”, reconhece Clarissa, que mora no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza.

Clarissa Bandeira e o filho Arthur

A experiência de cuidar do Arthur tem amadurecido e fortalecido esta corajosa mulher, que vem se tornando um grande exemplo de mãe na luta incansável pela inclusão do filho e no combate ao preconceito de uma sociedade despreparada para conviver com as diferenças. Aliás, acerca das dificuldades e intempéries da vida, já dizia o poeta Nietzsche: “Aquilo que não nos mata nos fortalece.” E Clarissa tem se tornado cada vez mais forte. Veja a íntegra da entrevista abaixo.

Eficiência e Superação (ES) – Quando você descobriu que o Arthur era autista?
Clarrissa Bandeira (CB) – Tive uma gravidez normal, Arthur nasceu no tempo devido, com desenvolvimento infantil normal até perto dos dois anos (engatinhou, sentou, andou e falou dentro dos limites normais de toda criança neurotípica). Quando completou dois anos, duas coisas me chamavam atenção, mesmo eu sendo mãe de primeira vez: Arthur não formulava frases e às vezes não atendia quando solicitado pelo nome. E eu não tinha dúvidas quanto à audição perfeita dele. Resolvi levá-lo ao neurologista André Luiz Pessoa, que o diagnosticou com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesta época ele já estava com dois anos e quatro meses.

ES –O que o médico recomendou?
CB – As indicações médicas foram terapias (fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia) e, o mais importante, uma escola regular. Busquei com rapidez profissionais especialistas em autismo no Centro Especializado em Autismo e outros Transtornos do Desenvolvimento, e o matriculei na Escola Casa de Criança (Infantil II), que recebeu e incluiu verdadeiramente o meu filho, e me acolheu no momento de dor profunda, que é o momento logo após o diagnóstico.

ES – O que você sentiu quando recebeu essa notícia?
CB – O sentimento é de luto, porque ‘perdemos’ a figura do filho ideal que vai estudar, se formar, casar, ter filhos, para só então acolher e aceitar o ‘novo filho’ com todas as limitações e peculiaridades inerentes ao autismo. Falo em acolher e aceitar, porque amar, a gente ama ainda mais”.

ES – Como tem sido a experiência de cuidar dele?
CB – Não é fácil ter um filho especial. Requer mais dinheiro, mais paciência e, principalmente, mais disponibilidade dos pais para uma vida de maior qualidade visando o desenvolvimento da criança. Por isso deixei de advogar após o diagnóstico para me dedicar a ele. Todas as manhãs eu o levo para as sessões de terapias e natação. À tarde o levo para escola e, à noite, tem terapia comportamental para desenvolver suas habilidades. Isso sem falar dos inúmeros preconceitos que nós enfrentamos no dia a dia e na falta de informação por parte da população acerca dos direitos dos nossos filhos.

ES – Que tipo de preconceito?
CB – Já deixamos de ser convidados para festinhas infantis de amiguinhos e até de alguns da família após o diagnóstico. A realidade das famílias de crianças com alguma deficiência é difícil e desgastante, pois temos que lutar para que os direitos dos nossos filhos sejam respeitados. Exemplo disso temos a vaga especial de estacionamento que muitos ainda acreditam que só é para cadeirantes e precisamos sempre explicar que esse direito foi estendido por lei para pessoas com deficiência mental e autistas.

ES –O que mais a angustiou até agora?
CB – Com certeza foi o preconceito que sofremos com a falta de inclusão por parte das escolas. Desde março deste ano que venho fazendo uma verdadeira peregrinação à procura de escolas para o meu filho estudar em 2017, pois a Casa de Criança só tem até o primeiro ano do ensino fundamental. Você chega e pergunta se há vaga na escola, a resposta é que sim, falam sobre o método de ensino, mostram a estrutura da escola, mostram-se solícitos até o momento em que você pergunta se eles trabalham com inclusão, pois a criança possui necessidades especiais.

ES – O que as escolas alegavam?
CB – Algumas, de pronto, já diziam logo que não havia vagas, que não tinham como receber por já terem muitas crianças com alguma necessidade especial. Outras afirmaram que podiam receber, fizeram entrevistas conosco, marcaram para conhecer a criança, nos encheram de falsas expectativas, e, quando concluíram que a criança necessitava de um apoio individual por parte de uma estagiária ou auxiliar, trataram de nos “despachar” (às vezes até por telefone) para não terem o dispêndio de arcar com o pagamento da estagiária. Além daquelas que afirmaram não estar preparadas para receber crianças especiais.

ES – Por que tanta dificuldade?
CB – Isso se dá em virtude da nova Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015), que entrou em vigor em janeiro deste ano, obrigando as escolas a promoverem a inclusão de crianças com alguma necessidade especial, à medida que também as proíbe de cobrar taxas adicionais para recebê-las. Como as instituições não querem arcar com esse ônus, alegam inúmeras situações para justificar a recusa.

ES – Então, em vez de ajudar quem mais precisa a lei acaba prejudicando?
CB – Antigamente, quando nós pagávamos além da mensalidade (também por essa pessoa para auxiliar o nosso filho), era menos difícil conseguir uma escola. É verdade que foram muitos meses de procura, ansiedade, tristeza e decepção. Mas o problema não é a lei, são as escolas que não querem cumpri-la (à exceção da Casa de Criança que, a partir da vigência da lei este ano, disse não ser necessário pagar taxa extra). Daí a Família, amigos, profissionais da escola Casa de Criança, todos em busca de uma escola para o Arthur. Convicta de que pelos meios normais eu não conseguiria matricular o meu filho, selecionei cinco escolas entre as inúmeras que visitamos, para promover uma reclamação perante o Ministério Público e posterior ação judicial.

ES – Por que não ajuizou a ação?
CB – Ocorre que para se ingressar com processo é necessário a negativa de matrícula por escrito e nenhuma escola se presta a dar esse documento. Dessa forma, resolvi fazer uma carta com Aviso de Recebimento (AR) para algumas escolas que visitei, dando um prazo a contar da data do recebimento pela escola, para matricular meu filho ou negar a vaga, ressaltando que a falta de resposta dentro do prazo ofertado, implicaria a negativa de vaga para matrícula. A questão é: como confiar que meu filho tão amado seria incluído numa escola que teria de aceitá-lo em virtude de uma decisão judicial?

ES – A quem você recorreu então?
CB – Como cristã que sou, pedi a Deus que me mostrasse um lugar para o meu filho, porque eu não sabia o lugar certo, mas Ele sim. E foi aí que passei em frente ao Colégio Santo Inácio, senti vontade de descer para conhecê-lo e, para minha surpresa, fui muito bem recebida e acolhida. Gostei muito da estrutura, dos funcionários e da paz que reina naquele lugar. Conheceram o Arthur e me ligaram para uma reunião com a Marta, coordenadora, e a Albaniza, diretora da instituição. No início deste mês de novembro, tivemos uma grande alegria ao ouvir que o Arthur seria o novo aluno do colégio. Além disso, afirmaram que ele seria muito bem recebido e acolhido por todos. Minha imensa gratidão a Deus e ao Colégio Santo Inácio!

ES – O que o Santo Inácio tem que falta aos demais colégios que disseram não?
CB – Penso que sejam duas coisas fundamentais em uma instituição de ensino: sensibilidade e boa vontade. Foi o que vi na fala da coordenadora Marta: “Nós não temos muita experiência com inclusão, mas nós temos um coração enorme e muita boa vontade para aprender, e se a parceria com a família for boa, dará muito certo”.

ES – Você faz parte de algum movimento em defesa das pessoas com deficiência?
CB – Sim. Participo da associação de pais e crianças autistas chamada Fortaleza azul (FAZ). No início éramos poucas mães. Hoje somos muitas famílias e nos reunimos aos sábados, uma vez por mês, em uma clínica cedida. Unidas somos forte, lutamos pelos nossos direitos e damos suporte a novas famílias que nos procuram.

ES – Que mensagem você deixa para outras mães que passam por situação semelhante?
CB – Minha mensagem para todas as famílias que têm alguma criança especial é: nunca desistam de seus filhos porque certamente eles irão surpreendê-los no futuro, e lutem sempre por todos os seus direitos, pois assim, quem sabe as pessoas se conscientizem que têm de respeitar e aceitar a todos, não por ser diferente, mas porque é um ser humano, cidadão, como qualquer outro!

Frases de Destaque

“Já deixamos de ser convidados para festinhas infantis de amiguinhos e até de alguns da família após o diagnóstico”

 

“A Casa de Criança recebeu e incluiu verdadeiramente o meu filho, e me acolheu no momento de dor profunda, que é o momento logo após o diagnóstico”

 

“O Santo Inácio tem duas coisas fundamentais em uma instituição de ensino: sensibilidade e boa vontade”

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