Quando me falam em preconceito

Por Glaucia Pontes – poetisa, procuradora da PMF e feliz por essência

Quando me falam em preconceito, ainda consigo ouvir os gritos das crianças no fundo do pátio, regados de uma euforia tão latente quanto o meu desejo de estar lá, correndo entre elas até que o suor pudesse marcar aqueles pequenos corpos. Mas eu não podia porque minhas pernas eram meu limite e me restava o canto daquela sala de aula vazia e triste esperando o final do recreio.

Era sempre assim que os anos iam e vinham na minha vida. Os pátios mudavam e crianças também, mas aqueles recreios se repetiram por anos a fio, e as lágrimas derramadas naqueles momentos só reforçavam o meu desejo de chegar ao pódio, embora eu não soubesse onde ele ficava e as crianças crianças que podiam correr, certamente ganhariam mas espaço que eu, mas eu precisava chegar lá e uma força vinha a me abraçar a cada recomeço de aula.

Apesar das lágrimas confesso que era feliz a cada dia, a cada conquista, a cada elogio e a cada sorriso do coleguinha ao lado.

Ser feliz com tão pouco era até invisível aos outros, mas é assim mesmo a vida de um deficiente.
A cada pequeno passo eu ia ganhando espaço no meu próprio mundo de Alice no país das maravilhas, formando meus conceitos de mim mesma, blindando minha áurea do preconceito das almas circulantes e fui vencendo a dor vinda do olhar do outro, especialmente daquele olhar de desprezo que te faz ser um nada.

Mas eu queria ser como todo mundo e veio a adolescência como um dragão devorador tentar matar meu sonho quando desejei ser amada como nos contos de fadas, quando quis que o príncipe do cavalo branco chegasse também pra mim, mas os olhares não chegavam, eram curtos demais pra enxergar o que eu tinha por dentro. E o amor ia sempre se perdendo em cada esquina, afinal, quem iria preferir a garota de botas?

O tempo passou como um vendaval errante, mas esperou que meus passos lentos fossem juntos e consegui encontrar os pódios dos meus anseios, com isso me ensinou que o preconceito não existe, é apenas um conceito prévio e muitas vezes errôneo, que os outros fazem de ti.

A vida me mostrou que todos somos diferentes, somos seres únicos da perfeição Divina, nenhum de nós tem a mesma digital, a mesma cor ou a mesma formação óssea, mas podemos taxar nossas próprias regras e metas e para isso, não precisamos da aprovação do outro, Deus nos fez suficientes para sermos o que somos, para tocar com a ponta do dedo a estrela que desejarmos, e a partir da pessoa que você fizer de si mesma, refletirá no espelho do outro.
Portanto saiba que profissão, amizade, amor e até o céu, você conquista com dedicação.

Fonte: https://m.facebook.com/galpontes52/