Liduína Carneiro: a ativista que mobiliza pessoas e instituições pelos direitos das PcD

Por Edson Viana – Jornalista

A ativista e advogada Liduína Carneiro encontrou na luta pela causa das pessoas com deficiência (PcD) um sentido maior para sua existência. Sensível a essa realidade, ela está sempre pronta para ajudar, seja ouvindo, orientando ou doando o seu tempo para atender as demandas diversas. São poucas as pessoas que têm o privilégio de estar à frente de uma missão tão nobre e ao mesmo tempo tão difícil.

“Recebo tantas denúncias, inclusive domingo à noite porque o WhatsApp não pára, não tem hora. São denúncias as mais variadas. Casos de cárcere privado; negativas de matrícula em escolas públicas e privadas; maus-tratos; negativas de acessibilidade física aos espaços em estabelecimentos de ensino e prédios públicos e privados, entre outros”, explicou Liduína, que atualmente ocupa o cargo de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Ceará (OAB-CE). O procedimento da Comissão é buscar um diálogo inicial com as pessoas envolvidas e, em fracassando esse diálogo, encaminhar tais denúncias ao Ministério Público do Ceará para a devida apuração.

Completando 30 anos como profissional da Advocacia neste 2018, sua atuação em defesa da Questão das Pessoas com Deficiência lhe completa. “Eu me sinto realizada. Exerço um trabalho voluntário e realmente gosto muito do que faço. Eu gosto de orientar, gosto de empoderar as pessoas com conhecimento, informações, tornando-as capazes de se manifestarem e reivindicarem os seus direitos. Isso é muito gratificante. Não há preço que pague”, reconhece. Em um mundo marcado pelo individualismo e indiferença, Liduína é uma pessoa singular que distribui solidariedade.

MOBILIZAÇÃO: A MAIOR CONQUISTA
A Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB-CE foi criada oficialmente em 2009, mas só passou a existir de fato, com atuação para a Sociedade Civil e à Advocacia, a partir de 2013, quando Liduína assumiu a Presidência. Uma das grandes conquistas à frente da Comissão foi a aprovação do Plano de Valorização de Advogados e Advogadas Pessoas com Deficiência, em agosto de 2017, pelo Conselho Seccional da OAB Ceará e, em setembro deste mesmo ano, pelo Conselho Federal da OAB.

O Plano, uma iniciativa da Comissão do Ceará elaborado por Liduína Carneiro, assegura várias oportunidades para a PcD que exerce a Advocacia. Com regulamentação em andamento, a efetivação deste Plano prevê desde parcerias da OAB-CE com escritórios e entidades para estimular a contratação de advogados e advogadas com deficiência, passando pela adaptação de espaços físicos em órgãos do Judiciário e das Administrações onde devem atuar, até a instrução necessária de pessoas com a finalidade de minimizar ou eliminar o preconceito (considerado crime pela LBI) praticado contra as pessoas com deficiência no exercício da profissão.

Contudo, para a ativista, sua maior contribuição tem sido a mobilização, seja atuando como uma ponte entre as várias instituições ou orientando e esclarecendo pessoas que buscam ajuda. Não raro a agenda dela é cheia. As manhãs são tomadas pelos trabalhos da Comissão (hoje conta com 14 integrantes), entre reuniões, visitas e palestras. “Nossa função é ligar, amarrar isso tudo com as entidades e instituições competentes, sempre buscando avançar nessa área. E é preciso uma mobilização constante, só assim as coisas acontecem”.

No período da tarde, a partir das 15h, de regra, é dedicada exclusivamente as rígidas rotinas do filho, que pedem sua atenção especial para acompanhamento das terapias, banho, leituras e passeios. “À noite coloco Ulisses para dormir, às 20h30, e depois respondo a todas as mensagens do WhatsApp, que são muitas, até zerar.”

O FILHO AUTISTA
Liduína tem um filho diagnosticado com TEA, de 22 anos, e uma filha de 24, que é médica. “Quando recebi a informação de que o meu filho era autista, não tinha noção do que se tratava”, lembra. Ela pensou que fosse uma doença que iria incapacitá-lo para o resto da vida, e “a maioria das pessoas também pensam assim.”

O primeiro passo foi buscar informação sobre o assunto, mas naquele tempo era difícil. “Em 2007 senti-me impotente, deprimida enquanto mãe de uma criança com autismo. Na época, a Casa da Esperança fez um Congresso Internacional de Autismo e eu participei. Conheci outras mães e fiquei chocada com a falta de condições delas. Vi situações mais graves que a minha e isso me aliviou, por incrível que pareça. Em grupos na internet, muito antes, em 2000, vi muitas mães que precisavam ser mais tratadas que os filhos. Por exemplo, uma disse que tinha abortado um anjo e que estava ansiosa com a nova gestação de outro “anjo azul”…; outra afirmou que Deus havia nos escolhido; era algo completamente alienado, não havia discussão que as empoderasse, só uma confusão entre a situação real e algo mágico ou cármico.”

Com o passar dos anos foi estudando e se envolvendo mais e mais com o tema e aprendendo que cada pessoa é diferente e ímpar e assim deve ser considerada. “Aceitar nossos filhos e filhas (ou amigos/as, todas as pessoas, enfim) como são é o primeiro passo para nos libertarmos e amarmos como deve ser o amor, livre.”

Ela vem se superando, mas lidar com um filho autista é tarefa complexa e imprevisível. Ela já levou mordidas e apanhou dele, mas nada a faz desistir, nem perder a alegria, ao contrário, encara tudo com naturalidade e determinação. “De vez em quando ele sai do prumo. Outro dia me deu um murro, depois, chorou, se arrependeu. Já levei uma surra dele que fiquei catatônica [desnorteada]. Mas não sou só eu que passo por isso, todas as mães que têm filhos autistas passam por situações semelhantes.”

Liduína concedeu a entrevista na OAB-CE

PERFIL
Francisca Liduína Rodrigues Carneiro – advogada, formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1988. É presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB-CE; membro da Comissão Nacional da OAB dos Direitos da Pessoa com Deficiência; e é integrante do Fórum Estadual das Pessoas com Deficiência.

A atuação é antiga, desde o início da Faculdade quando, ainda estagiária, debatia o retorno da União da Mulheres Cearenses e a implantação da Delegacia da Mulher. Sua atuação na luta pelos diretos humanos remonta à juventude, pois aos 15 anos já era engajada em atividades pastorais da Igreja Católica. Depois, na Faculdade de Direito, foi uma das lideranças do movimento estudantil, engajada na defesa da Universidade Pública e gratuita, na luta pelos Direitos da Mulher, Movimento Sindical, toda a articulação civil existente pelo retorno da Democracia. Paralelamente a isso, era voluntária/estagiária com membros do Ministério Público, na Comunidade do Gengibre, sobre ocupação do solo urbano na Capital, realizando trabalhos com apoio da Cruz Vermelha.

Ela é casada e mãe de dois filhos: Lígia, 24 anos, médica, e Ulisses, 22 anos.