Grupo de Teatro Olho Mágico: uma experiência pioneira, rica, transformadora

Por Edson Gomes, Jornalista

Superar barreiras, promover a inclusão e realizar grandes espetáculos no universo das artes cênicas. Com essas propostas surgiu o Grupo de Teatro Olho Mágico, lançado oficialmente na manhã da quarta-feira, 9 de maio, na Sociedade de Assistência aos Cegos (SAC), em Fortaleza.

Formado por 15 pessoas com deficiência visual (algumas cegas e outras de baixa visão), a equipe atualmente está ensaiando a peça Vila Paradiso, um conjunto de oito esquetes interconectadas que contam histórias urbanas de uma comunidade fictícia que leva esse nome.

Marcos Queiroz (idealizador do projeto), com Jóselia Almeida e Lizélia Almeida (vice e presidente da SAC) e Tadeu Oliveira, presidente do IVC

O idealizador é o médico clínico e emergencista Marcos Queiroz, 62 anos, que também é graduado em Teatro Licenciatura pela UFC e mágico profissional. Ele narra como teve a ideia de montar a equipe, em fevereiro deste ano. “Durante minha graduação em teatro fui responsável pela peça ‘Menos Um, – 1′ uma comédia encenada através da técnica do Teatro dos Sentidos [para cegos]. O local foi o Instituto dos Cegos, onde escolhi dois atores cegos para participar”, explica Marcos, que é o diretor e, juntamente com os professores Nádia Fabrici e Lucas Duarte, são os responsáveis pela formação dos integrantes.

O trabalho é pioneiro aqui no Ceará, justamente por levar pessoas cegas aos palcos, possibilitando-as de desenvolverem seus talentos e fazendo com que o diretor sonhe grande. “Nosso objetivo é formar uma equipe permanente de atores com deficiência visual, capacitá-los e encenar peças para o público em geral. Incluí-los socialmente e profissionalizá-los.”

Marcos é casado com Iolanda Queiroz e pai de cinco filhos (Raquel, Rafael, Suzany, Miguel e Gabriel). Ele reside em Fortaleza, e destaca sua motivação para esse projeto que tem o encanto da magia. “Sinto-me feliz por colocar em prática os ensinamentos do curso de Teatro e realizar um trabalho de inclusão social, cultural, ao promover a profissionalização de pessoas com deficiência visual.”

Fotos do evento: Ruth Sousa

O lançamento do Grupo foi prestigiado por representantes de órgãos públicos, de conselhos das pessoas com deficiência, professores do Instituto Hélio Góes, da Direção da SAC e do Instituto Vida Cidadã (IVC). A iniciativa é fruto de parceria entre o IVC e a SAC, entidades que o patrocinam. Os ensaios ocorrem três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas pela manhã. Interessados em participar devem entrar em contato com: Marcos Queiroz (85)98828-6868 ou doutormagico@yahoo.com.br  – Clique aqui para ver vídeo do grupo ensaiando.

“ELES ME FIZERAM LEVE”

Lucas Duarte, de 24 anos, dá aulas de teatro há sete anos, mas para pessoas com deficiência é a primeira vez e diz se sentir abençoado. “Tive a sorte de receber um daqueles presentes da vida, que faz você parar e pensar: o que eu tô fazendo no mundo? Eu vou ficar só pagando contas, preocupado e me lamentando ou vou ser feliz?” Também relata que sua percepção de vida mudou a partir do momento em que começou o trabalho. “Aprendi a ver o mundo com outros olhos, os olhos que eles me propuseram ver, que é o coração. E o mais gratificante é que eles nos abraçam de uma maneira linda, rica e orgânica, naturalmente leve. E assim eles me fizeram: leve”, constata Lucas, que desenvolveu uma relação paternal com os alunos, a quem os considera como filhos.

Há oito anos no ramo do teatro, Nádia Fabrici revela que precisou se reinventar como professora. “Está sendo um grande desafio, mas também uma experiência muito rica esse processo de redescoberta de dar aulas. Por exemplo, antes de passar um alongamento pra eles, primeiro, em casa, eu fecho os olhos e tento me colocar no lugar deles. Assim, por se tratar de uma ação pioneira, eu aprendo muito mais com eles do que eles comigo.” Ela é formada em teatro pela UFC, e está em sua segunda graduação (Dança/UFC). Ao avaliar o desempenho dos alunos, disse que “eles são extremamente dispostos, apenas com certas limitações, como toda pessoa tem, mas aí o próprio fazer teatro vai se desenrolando e se amoldando conforme as condições deles”. Nádia tem 26 anos e é atriz do Terceiro Corpo de Teatro.

OPINIÃO DOS INTEGRANTES

“Participar desse projeto significa que a pessoa com deficiência visual pode ser protagonista da própria inclusão cultural, ser o ator principal das lutas e vitórias em relação à inclusão e à acessibilidade. Quando estamos reunidos, a deficiência fica em segundo plano porque quem atua é o ser humano, que acredita e valoriza a arte e a cultura. Quando encenamos nos desconectamos das nossas limitações e nos conectamos plenamente com a cidadania. Então, fazer teatro representa para a pessoa com deficiência visual enxergar novos cenários das potencialidades, vivenciar as principais cenas da vida de qualquer ser humano, que é colocar sentimento, espiritualidade e atitudes transformadoras na sociedade em que se vive”, Paulo Roberto, engenheiro e coordenador de projetos da SAC

“Sinto-me feliz. Realizada. Sou imensamente grata aos professores Nádia e Lucas, bem como ao nosso diretor Marcos Queiroz [idealizador] e ao nosso patrocinador, Dr. Tadeu Oliveira [presidente do Instituto Vida Cidadã] pela criação do Grupo de Teatro Olho Mágico”, Jornalista Ana Ximenes

Um comentário em “Grupo de Teatro Olho Mágico: uma experiência pioneira, rica, transformadora

  • 3 de junho de 2018 em 21:16
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    Muito precioso esse site que aborda assuntos de grande relevância social e nos revela a potência que existe nas pessoas que possuem déficits e supera paradigmas. Parabéns a todos os envolvidos.

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