“Deus tirou as pernas, mas deixou a inteligência e a coragem”

Por Edson Gomes, Jornalista

Gerardo Carneiro é um dos locutores esportivos mais conhecidos do interior do Ceará. De segunda a sábado, das 11h às 12h, ele apresenta o “Atitude nos Esportes”, programa líder de audiência que abrange 17 cidades da região de Itapajé, Município localizado a 122 km de Fortaleza. No confortável e moderno estúdio da Rádio Atitude FM, Gerardo fica à vontade para falar ao microfone e atender ligações dos ouvintes que dão informações de última hora.

Simpático e educado, é visível que Gerardo faz do trabalho uma atividade prazerosa. “Amo o que faço, e sou muito grato a Deus por ter me permitido chegar até aqui”, reconhece ele, que tem 51 anos e ficou paraplégico em decorrência de poliomielite quando tinha um ano e oito meses. Com voz firme e impactante, Gerardo impressiona pela capacidade de articular as palavras rapidamente, dominando como poucos a arte de narrar jogos. “Deus tirou as pernas, mas deixou a voz, a inteligência e a coragem”, reconhece com humildade.

Quando o assunto é futebol, não há dúvidas de que Gerardo é um dos profissionais mais habilidosos e queridos do rádio cearense, com a experiência de quem atua nesse segmento há 30 anos. “Ele é um narrador dotado de uma dicção perfeita e, como amigo, tem um coração generoso e agregador”, disse o também profissional da área, Maçal Sales, colega de trabalho há anos.

”O Gerardo tem uma trajetória vitoriosa. É um desbravador. Começou como narrador na Soledade e tinha como transporte um jumentinho. Trabalhamos juntos durante quatro anos na Bela Vista FM. É uma pessoa que se destaca pela lealdade, perseverança e companheirismo”, elogia o radialista Tabosa Filho, que apresenta dois programas de rádio no Município de Irauçuba.

Criatividade e disposição
Mas Gerardo não se limita apenas ao rádio. Com muita disposição e criatividade, ele adaptou sua moto com duas caixas de som e um microfone para trabalhar fazendo Mídia Propaganda Volante pelas ruas da cidade nos período da manhã e da tarde. “Anuncio de tudo: do funeral a briga de galo.”

À noite, quem pensa que ele vai descansar, engana-se. Por volta das 18h, ele e a esposa, Maria Costa Sousa, montam na moto e vão para o Centro da cidade vender lanches. “Vendemos munguzá, caldo e creme de galinha. Já temos os clientes certos.” Os dois retornam para casa por volta das 21h.

São casados há 26 anos e pais de João Paulo, de 17 anos. Maria não poupa elogios ao esposo. “É um bom marido, um bom filho e um bom pai. Muito dedicado à família, ao trabalho e a tudo o que faz. É detalhista, organizado e não para. Está sempre fazendo alguma coisa”, diz orgulhosa.

Uma mente blindada
Nem a deficiência, o preconceito, a falta de acessibilidade e a infância pobre foram capazes de impedir a ascensão profissional e pessoal de Gerardo. “Já fui vítima de muito preconceito, e ainda hoje isso é comum, às vezes é dissimulado, outras, escancarado. Já teve gente que disse: ‘Cara, se eu fosse como você já teria me suicidado’. Mas não me deixo abater. O preconceito está na cabeça dos outros, não na minha. Então, sigo em frente.”

Apesar das adversidades e contrariando todas as expectativas negativas, o que ninguém esperava acabou acontecendo: dos nove filhos, ele, vítima de paralisia infantil, foi o que mais evoluiu. Ele prosperou e passou a ajudar os familiares, seja orientando ou ajudando financeiramente. “Fiz com que a maioria deles melhorasse de vida.”
Ele enfrentou muitas dificuldades, mas ao final tem uma história de superação para contar. “A minha realidade era super desfavorável. Mas com a ajuda de Deus, eu a tornei favorável. Deus me deu um dom, talento natural, mas tive que cavar cada oportunidade. E não foi fácil. Muita gente boa ficou no meio do caminho”, explica. Atualmente, Gerardo tem duas cadeiras de rodas e uma moto adaptadas, um automóvel e casas no bairro da Exposição, onde mora. “Gosto de possuir as coisas, embora não tenho apego a nada. Tudo isso é importante porque facilita, agora, o que importa mesmo pra mim hoje é conversar com Deus em minhas orações”, revelou.

“O Gerardo merece tudo de bom porque sempre foi muito trabalhador, responsável e disciplinado”, disse Rosa Maria, de 78 anos, que o conheceu ainda na infância e era amiga da mãe dele. Ela lembrou que na adolescência ele trabalhava capinando os bananais, em terrenos montanhosos, íngremes, de difícil acesso. “Na região todos o admiravam porque, apesar da limitação, podia fazer o que qualquer um fazia, de igual pra igual”. Além disso, Rosa Maria destacou o lado humano dele. “Ele gosta de contribuir para manter as atividades da igreja aqui do bairro. Já doou até fogão.”

O difícil começo

Gerardo Carneiro nasceu em Soledade, distrito de Itapajé, em 1967. É filho do casal de agricultores Gerarda Pereira de Sousa e Pedro Xavier Carneiro, que tiveram nove filhos. Quando tinha dez anos, começou a ouvir pelo rádio o locutor Gomes Farias narrando futebol. “Fiquei maravilhado. Foi aí que botei na cabeça que um dia seria narrador esportivo.”

Aos 16 anos, passou a narrar “as peladas de futebol”, de uma maneira muito improvisada, usando apenas um gravador de pilha. Ele gravava os jogos e depois ficava ouvindo com os amigos. Foi assim que começou a realizar o seu grande sonho. Depois, aos 20 anos, narrava as partidas na sede do município, utilizando a famosa “Radiadora do Dedim”. O curioso é que, na época, o carro era raridade, então utilizava como veículo um jumento, carinhosamente batizado de “Fortaleza”, em homenagem ao time preferido. Montado no animal, que era grande e de cor preta, percorria cerca de 30 km da residência ao estádio de Itapajé, percurso que fazia por cima da serra, subindo e descendo ladeiras, retornando para casa por volta das 22h da noite, no escuro, na maioria das vezes sozinho.

A rotina durante a semana era trabalhar capinando, roçando os bananais, despencando bananas, topava tudo. A deficiência nunca o impediu de realizar trabalho braçal e o dinheiro que recebia dava aos pais para ajudar no sustento da família. Nos fins de semana, descia a serra para narrar os jogos. “Vinha feliz em cima do meu jumentinho. Era uma aventura, um desafio agradável, apesar de ganhar só uns trocados pelo serviço. Passei uns seis anos fazendo isso.”

Aos 22 anos, mudou-se para a cidade. Lá, concluiu o Ensino Médio e, à medida que estudava, também trabalhava em várias rádios comunitárias. Nesse período, fez curso de locutor em Sobral e, posteriormente, foi contratado pela Guanáces Clube, emissora oficial, na qual atuou por 16 anos. Atualmente, na Rádio Atitude, já tem oito anos como narrador de futebol e apresentador de programa esportivo.

Se todo começo é difícil, imagine para uma pessoa com deficiência, que tinha de se arrastar pelo chão, fazendo das mãos os pés para se locomover, em lugares completamente sem acessibilidade. Não havia cadeira de rodas, casa ou moto adaptadas. Gerardo não só viveu essa dura realidade como se tornou grande exemplo de superação. Hoje leva uma vida tranquila, mas aos que acham que se acomodou ele adverte: “O difícil não é chegar. O difícil é você se manter”.
Ele é a prova de que o ser humano precisa ser movido por sonhos, não importa quão grandes sejam as dificuldades. “Quando você quer muito uma coisa, foca naquilo, vai atrás e acaba conseguindo.”

 

4 comentários em ““Deus tirou as pernas, mas deixou a inteligência e a coragem”

  • 2 de outubro de 2018 em 21:29
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    Exemplo de força e coragem. Histórias assim são inspiradoras e mereciam mais repercussão.

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  • 7 de outubro de 2018 em 22:31
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    A história de Gerardo é daquelas que nos enche de inspiração, derpertando o ímpeto de agir, de sair da comodidade em busca do nosso potencial máximo. É um verdadeiro tapa na cara que nos liberta da letargia que inevitavelmente se instaura em decorrência da rotina. Resiliência, garra, persistência, fé…quanto esse homem tem a nos ensinar? São exemplos como esse que nos fazem acreditar que Deus tem um propósito na vida de cada filho que Ele põe no mundo. Viva, Gerardo! Que sua luz continue a nos iluminar por muito tempo.

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  • 12 de outubro de 2018 em 19:48
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    Verdadeiro sentido de triunfo! Ensina a muitos de nós o real valor das coisas nessa passagem nossa tão efêmera sobre esta terra.
    “Sendo Deus o teu tesouro, nada lhe falta. Ainda que tudo perca, só Deus basta.” Santa Teresa D’Ávila

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  • 15 de outubro de 2018 em 21:00
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    Histórias de vida assim engrandecem o nosso espírito. Exemplo de superação. Parabéns pela matéria!

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