Da dor à superação: como uma tragédia levou Mara Gabrilli a ajudar milhões de pessoas com deficiência

Por Talita Souza
Jornalista

Dificuldades existem para qualquer pessoa. Todos nós já passamos ou iremos passar por alguma situação que exija firmeza e perseverança para vencê-la. E se você tem alguma limitação, como é o caso das pessoas com deficiência, essas dificuldades são potencializadas pois, além de enfrentarem preconceito, ainda travam uma batalha constante para serem incluídas na sociedade. É o que revela a história da deputada federal Mara Gabrilli, 48 anos, que fez da dor uma mola propulsora para mudar sua própria realidade e a de milhões de brasileiros com deficiência.

Aos 26 anos, Mara sofreu um acidente de carro que a deixou tetraplégica. A partir daí, viu sua vida sofrer a maior das reviravoltas. Duas semanas após a fatalidade retomou a consciência e perguntou ao médico se iria recuperar os movimentos. A resposta foi dura: apenas 1% de chance. Ao invés de se entristecer e ficar desesperada, o que seria uma reação compreensível, Mara desprezou a certeza dos 99% de que não poderia e se concentrou na mínima probabilidade (1%), fazendo dessa possibilidade o alvo maior da sua vida.

Hoje, passados 22 anos do acidente, Mara já consegue movimentar o braço esquerdo e com isso é capaz de pilotar a própria cadeira de rodas. Sem dúvida, esse resultado é uma conquista imensurável. Segundo ela, o braço “está ganhando força, tá evoluindo. E agora eu já tô começando a pilotar com a outra [mão direita] também”, disse durante entrevista concedida ao programa do Amaury Jr., da Rede TV, em abril deste ano.

PROJETO “CADÊ VOCÊ?”
Em 1997, quatro anos após o ocorrido, ela fundou o Instituto Mara Gabrilli (IMG), ONG que tem o objetivo de ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência. Entre os projetos realizados pela Instituição, destaque para o “Cadê Você?”, que localiza e identifica pessoas com deficiência, avalia suas condições de vida, situação socioeconômica, recursos de acessibilidade e com isso cria uma rede de proteção levando informações sobre os principais serviços existentes nas áreas da saúde; trabalho, acessibilidade; educação e direito.

Ao citar a iniciativa, Mara explicou o funcionamento do projeto. “A gente vai em regiões bem periféricas, vulneráveis, procurar as pessoas com deficiência que não têm acesso aos serviços e a gente faz cartilhas, vídeos e detecta qual é a falta de informação pra poder capacitar melhor as famílias, empoderar os cuidadores para que eles saibam cuidar mesmo sem recurso, mesmo ficando anos na fila pra conseguir uma reabilitação. Então a gente dá um caminho mais breve pra já começar a fazer em casa”, declarou no citado programa.

Foto Mara gabrilliContudo, a luta de Mara pela igualdade e melhoria das condições de vida das pessoas com deficiência não se limitou apenas a ONG. Como deputada federal (PSDB–SP), foi relatora na Câmara dos Deputados do projeto de Lei que se tornou a Lei Brasileira da Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI – 13.146/2015), que entrou em vigor no último dia 2 de janeiro, após tramitar por mais de 13 anos no Congresso Nacional.
A lei garante direitos nas áreas de trabalho, saúde, educação e infraestrutura aos 45,6 milhões de pessoas com deficiência no País, de acordo com os dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que representa cerca de 23,9% da população brasileira.

SENTINDO A DOR DO OUTRO

Ao se tornar deficiente, Mara sentiu na pele as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência, principalmente aquelas que não possuem recursos financeiros. Depois de retornar ao Brasil, após ter ido aos Estados Unidos buscar tratamento para a sua reabilitação, ela percebeu as dificuldades que um cadeirante tem para se reabilitar no País.
“Quando eu cheguei ao Brasil vi o despreparo, a falta de informação, de acessibilidade, de tecnologia, de equipamentos, de tudo. Falta educação, falta você trabalhar a reabilitação física junto com a reabilitação pro mercado de trabalho. Falta saúde, falta a reabilitação em si. Hoje nós até temos centros de reabilitação, que são centros de excelência, mas é uma oferta que não cobre a demanda. E aqueles que conseguem, chega uma hora que tem de acabar e descontinuar o tratamento porque a fila tem que andar”, explicou ao ser indagada sobre a reabilitação dos cadeirantes no País, no programa NT Jornalismo, da Rede Novo Tempo.

Como a primeira titular da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED), criada em abril de 2005, Mara desenvolveu vários projetos nas áreas de infraestrutura urbana, saúde, transporte, educação, cultura, emprego e lazer. Seu trabalho resultou no aumento de 300 para cerca de três mil ônibus acessíveis com bancos largos para obesos e piso baixo. Também foram reformados 400 km de calçadas adaptadas, inclusive na Avenida Paulista, uma das principais avenidas de São Paulo, que com pode-tátil, rampas e semáforos sonoros, se tornou modelo de acessibilidade na América Latina. Foram criados ainda 39 núcleos municipais de reabilitação física e saúde auditiva e empregos para mais de mil trabalhadores com algum tipo de deficiência. Os livros das bibliotecas municipais ganharam versão em Braile ou áudio, além do acesso de 14 mil pessoas com deficiência ao cinema, teatro e exposições.

Em 2010, além de Mara Gabrilli, a Câmara dos Deputados ganhou mais dois cadeirantes, os deputados Rosinha da Adefal (PTdoB-AL) e Walter Tosta (PSD-MG), porém apenas Mara foi reeleita em 2014. Hoje, ela reconhece que apesar das conquistas alcançadas, ainda existe muito a ser feito para que o Brasil se torne um País inclusivo e mais acessível.

Confira o discurso (em vídeo) da deputada que emocionou no Plenário Ulysses Guimarães, na Câmara Federal, no dia 24 de fevereiro de 2011.
link Vídeo: http://poderonline.ig.com.br/index.php/2011/02/28/deputada-cadeirante-emocionou-a-camara-com-discurso-em-defesa-dos-portadores-de-necessidades-especiais/

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