Desfile de moda inclusiva quebra preconceitos e coloca a acessibilidade na passarela

Por Francisco José, jornalista

A efetiva inclusão nos diferentes setores e atividades da sociedade é um tema que nunca sai de moda. Essa frase encontrou amparo em ação do Centro Universitário Estácio, em Fortaleza, que promove desfiles com a participação de pessoas com deficiência (PcD), oportunizando quebra de barreiras, democratização, difusão de informações e lições de cidadania.
Um dos participantes foi o garoto Luiz Guilherme, de 10 anos de idade. Ele tem Distrofia Muscular de Duchene (doença degenerativa incapacitante caracterizada pela ausência de uma proteína). A mãe, Izabel Cristina Moreira, conta que o convite veio por meio de amigos e a ideia de aceitar partiu do jovem. “Todas as atividades eu pergunto se ele quer, porque ele precisa querer para ser algo bonito. Eu fiquei surpresa porque ele é tímido.”

Vencendo obstáculos
Izabel Cristina reforça que a participação do filho no desfile, ocorrido em 30 de maio deste ano, no Shopping Aldeota, representou “ótima oportunidade para também falar sobre a doença, que poucas pessoas conhecem. Foi a primeira vez e foi maravilhoso. Uma experiência única. Ele adorou”.

Professora Karine Façanha e a advogada Laura Leal

Ainda de acordo com a mãe, a ação mostrou que Luiz Guilherme pode fazer qualquer coisa como as outras pessoas fazem. “Quando ele diz que não consegue, eu falo: você pode, você consegue. Para ele foi mais um desafio e mostrou que ele pode sim. Foi muito positivo e espero que esses convites se repitam”, comemora.

Ela destacou que ainda existe certo preconceito e desconhecimento, mas procura encarar a vida com alegria e disposição. “Eu vivo um dia de cada vez como se fosse o último. Tudo o que estiver ao meu alcance eu farei pelo meu filho. Tudo que ele quer participar eu levo. Até para mostrar que meu filho existe. Ainda têm aqueles olhares e tudo, mas fazer o que? É viver. Eu gosto de viver a vida com meu filho, e não a doença. Vamos em frente.”

Os desfiles
Segundo a professora Karine Façanha, do curso de Design de Moda da Estácio, os desfiles ocorrem desde 2014, sendo um por semestre. Fazem parte da disciplina Desenvolvimento de Coleção e têm caráter avaliativo. As coleções, desenvolvidas pelos alunos, são voltadas para o público tradicional e inclusivo (cadeirantes, deficientes visuais, pessoas amputadas, que utilizam próteses).

Ela explica que a ideia surgiu a partir de pesquisas sobre tendências na área da moda. “A gente percebeu a grande presença, principalmente no Sul e Sudeste do Brasil, da moda inclusiva. A Coordenação do curso achou interessante ter uma mini-coleção voltada ao público inclusivo. Isso já existia no mercado, mas não tinha aqui em Fortaleza.”

Ainda conforme Karine Façanha, quem participa dos desfiles costuma voltar nas edições posteriores porque gosta e entende a dinâmica do evento. Há a participação de crianças, adolescentes e adultos. Apesar dessa aceitação, a professora afirma que muitos familiares não aceitam a participação dos filhos, sobretudo quando se trata de jovens. “Não consegui ainda decifrar a barreira que eles sentem, mas tem o lado oposto também. Tem mãe que vai, tira foto, curte nas redes sociais, comenta. Eu vejo que aqueles familiares que participam fazem isso com muito gosto, vibram mesmo. Mas tem aqueles que não têm coragem. Ainda existe esse paradigma que a gente precisa quebrar.”

Lídia (à esq.), Laura, Izabel Cristina e o filho Luiz Guilherme

Visibilidade
A advogada Laura Leal, uma das fundadoras da Associação Cearense de Distrofias Musculares (ACDM), considera a iniciativa importante, porque indica que a sociedade está começando a ver que as PcD são pessoas como todas as demais. “Cada uma tem sua beleza, seu charme, sua alegria de viver. A iniciativa dessa universidade mostra que a inclusão começa a ser vista e pensada”. Ela considera ainda que possibilitou a oportunidade de divulgar o trabalho da Associação, que existe desde abril de 2018 e auxilia pacientes e familiares.